Quem não te quer, não te merece
Gostar de si mesmo deve ser um hábito, é o pilar que nos sustenta e cuida, nos protege e, é
claro, nos dá um empurrão para que cresçamos mais e mais. Eu estava
na pré adolescência e a vida me parecia maravilhosa. Tudo que eu vivi,
ouvi, toquei e senti naquele tempo perdura até hoje em minha memória - e com uma
intensidade poética indestrutível. Cada manhã era um alegre convite para
viver minha vida com simplicidade e, diria eu, pudor da própria natureza.
Eu cursava a última série ginasial no Colégio Matter Dei e minha
inocência já dava alguns sinais de sensualidade quando os meus olhares cruzavam
ávidos os olhares dos garotos.
Já estávamos no segundo semestre, quando João Antonio entrou em nossa classe
trajando uma calça jeans e uma camisa branca com caimento impecável. Senti meu
coração palpitar e meus olhos brilharem de encantamento. Quem era aquele
jovem bonito, alto, cabelos claros, de uma pele fina quase acetinada?
Aos poucos fomos nos conhecendo e não demorou para ficarmos mais amigos e
começar um namoro. Tínhamos a mesma idade, as mesmas alegrias e estávamos
sempre juntos fazendo nossos trabalhos escolares e as matinées do cinema à
tarde era o nosso prazer.
E assim continuamos até a nossa formatura de conclusão ginasial, com direito a
missa na Igreja São José pela manhã, e entrega de diplomas à noite no
Salão de Baile da cidade. Lembro-me bem do vestido azul-piscina que eu
vestia naquela noite, todo adamascado com fios dourados. Um luxo!! Sonhando,
dançamos felizes durante a noite que se prolongou até a madrugada. E
eu, naquele momento, já sentia algo mais profundo por João Antonio.
Mas aquele namorico
escolar não duraria muito tempo e assim naturalmente terminou nosso relacionamento fugaz.
A adolescência voou embora, assim como João Antonio, batendo asas tão rapidamente. Só
me dei conta da minha transformação de menina em mulher quando
já estava morando em São Paulo. Minha vida tomara outro rumo. Foi um
choque quando percebi de verdade que tudo havia mudado, e para sempre.
João Antonio já morava em São Paulo quando numa tarde, para minha surpresa,
ligou-me dizendo-se saudoso e que gostaria muito de visitar-me.
- Claro, ficarei muito feliz - respondi.
Sentados na varanda de casa relembramos fatos do passado, falamos de nós, dos
nossos ideais, dos projetos futuros, e rimos evidentemente, relembrando o
nosso finito namoro. Ele tinha um sonho, viajar por toda a Europa, em
busca de novas aventuras.
No entanto, algo nele estava diferente - sim, ele já não era a mesma pessoa. No
seu modo de andar, de falar, com roupas estranhas e trejeitos com as mãos,
segurando delicadamente o cigarro que fumava. Após muita prosa, despediu-se.
Nunca mais o vi, nem soube dele.
Muito tempo depois, eu havia acordado uma certa noite para escapar
de um "sonho" já conhecido. Esse sonho não
me deixava dormir todas as vezes que nele aparecia o João Antonio. Senti uma vontade imensa em revê-lo. Por onde andaria, depois de tantos
e tantos anos? Estaria vivo? Se minha vida andara várias vezes de ponta cabeça,
como estaria a vida dele hoje?
Às vezes,
nossa vida nos mostra generosa quando sonhamos com algo e passado algum tempo
isso venha a se tornar realidade. Bem, e foi assim que aconteceu com a minha ideia de encontrar João Antonio. Fui em busca
das informações e não demorou muito em saber que ele se encontrava também em
São Paulo e que aos domingos montava uma banca de antiquário no vão do MASP, o famoso Museu de Arte de São Paulo.
O tempo foi passando e eu sentia mais distante a ideia de reencontrá-lo. Um
certo domingo, eu e Telma, uma querida amiga, fomos à Avenida Paulista nos
encontrarmos para um almoço. Bastou para ser a oportunidade tão esperada por
mim de procurá-lo.
Circulando pelas bancas de artes em ziguezague, eu
não conseguia achar nos rostos das pessoas a bonita fisionomia de João Antonio.
"Claro, estaria mais velho, porém algum traço daquela beleza singular
deveria existir", pensava eu. Pergunta aqui,
explica ali, finalmente alguém indicou-me a banca onde ele expõe seus objetos
de arte.
Senti meu coração batendo mais forte de emoção quando finalmente o encontramos.
- Olá, você é o João Antonio? - perguntei. Sou eu, a Clarisse.
- Clarisse ? Que Clarisse ? - ele respondeu.
- A Clarisse, lembra de mim? De Ribeirão Preto. Estudamos na mesma classe no Colégio Julio de Mesquita, fazíamos trabalhos escolares juntos... - eu insisti.
- Ribeirão Preto ? Ah, sim, estudei no Colégio Julio de Mesquita por seis meses, mas isso foi há mil anos atrás - ele respondeu,
gesticulando com as mãos para me dar a entender que Ribeirão Preto nada mais representasse a ele. E continuou:
-Morei muitos anos na Europa, e já não tenho mais
nada a ver com Ribeirão Preto.
Seu olhar desviava dos meus olhos e a cabeça pendia
para um lado e para outro toda vez que eu lhe fazia uma pergunta. Sem
esmorecer, tentando fazê-lo lembrar do nosso tempo, indaguei:
- João Antonio, lembra-se, vivenciamos um breve
namoro em nossa adolescência!
Com a voz perfurante, ele me nocauteou:
- Não me lembro de nada, não. Se foi bom pra você,
pra mim não foi, porque não me lembro de você - disse, em tom
ríspido.
A indelicadeza que ele me transmitiu
com sua voz, o desprezo que havia em seus gestos, e especialmente o fato de não
me olhar nos olhos me provocaram uma tristeza profunda, infinita. Ser tratada
dessa maneira tão desprezível, tantos anos depois, foi um choque, sem sombra de dúvidas. Afinal, ele agora era uma pessoa completamente
estranha - inclusive eu demorei a assimilar o seu
rosto atual, comparando-o
com o dos tempos de outrora. Eu
buscava ao menos um detalhe que pudesse identificá-lo, mas qual? Ele já não tinha absolutamente
nada daquela beleza de antes, muito menos, a amabilidade.
"Um asno", pensei com os meus botões. Ele havia mudado
tanto! Talvez estivesse sofrendo
de perda de memória, sim, poderia ser isso. Mas qualquer
ponderação minha não mudaria a realidade: aquela cena foi ridícula.
Minha amiga Telma, na tentativa de esboçar algumas palavras em minha defesa,
também foi golpeada com respostas rudes. Para mim, ali já bastava.
Olhando para o seu aspecto como o de uma pessoa relaxada, barba por fazer,
envelhecido, atormentado por algo inexplicável, tentando colar um pedaço de
dente quebrado na boca, senti aversão, repulsa e indignação pela frieza com que
ele nos tratava. Tive
que controlar meus impulsos nervosos para não ser áspera com aquele
ser.
Dei um adeus arrefecido,
sem aperto de mãos. Contudo, o que mais doía dentro de mim era o fato de ele
ter me esquecido. Que decepção pungente!
Aos poucos, fui recuperando os sentidos e
reconhecendo nesse momento que libertar-me daquele "sonho" era um ato
de amor-próprio que eu exercia. E
que ato! Ah, se todos cultivassem o amor-próprio como merecem...
Quando a pessoa não gosta de si mesma, como vai gostar
do outro? Ninguém pode dar o que não tem. Aos
poucos fui percebendo, durante aquele encontro, que
não era sobre mim que ele cuspia raiva, e sim, sobre ele
próprio, revelando-se uma pessoa extremamente infeliz,
pela vida que escolheu viver.
Sentirei saudades do meu passado feliz, e só!
yaradarin