22 de agosto de 2020

REENCONTRO I

 

REENCONTRO

A despedida tinha sido cruel. Ela sabia que jamais o veria, mas intuía que suas almas jamais se separariam. Seu corpo quase inerte respirava com dificuldade, como se uma avalanche tivesse caído sobre sua cabeça. Mas agora, tarde demais, ele não voltaria atrás. Todo aquele imenso amor havia se acabado naquela despedida.

O relógio marcava 10 pm. Precisava descansar e um chá quente faria-lhe bem. Queria tomar algo que a fizesse dormir profundamente, era tudo o que precisava naquele momento. O dia havia sido consumido em diálogos intensos, pontos inconsistentes, repetitivos, com incalculáveis conjunturas, esgotando-a profundamente. Estava exaurida e a decisão de se separarem deixava seus nervos em frangalhos.

O namoro com Dean vinha desde a adolescência. Quando o conheceu, foi amor à primeira vista. Dean tinha muito charme com seus olhos ora azulados, ora acinzentados. Com aparência angelical, nariz delgado, cabelos crespos e pretos. Trazia uma grande mancha marrom sobre sua sobrancelha esquerda, que lhe dava um certo encanto.

Ela o amava profundamente. Dean tinha o hábito de ligar toda manhã para dar-lhe bom-dia. Sua voz sedutora fazia-a eriçar todo seu corpo. Aquele momento era único, pulava da cama com tamanha agilidade sabendo da alegria imensa que a esperava no finalzinho da tarde,  quando o encontraria na cafeteria Blue Star.

Nos finais de semana, viajavam para lugares distantes em busca da natureza, onde pássaros cantavam ao amanhecer. No inverno, ficavam em lugares aconchegantes, com lareira, acompanhados de um bom vinho tinto. Momentos íntimos que só eles sabiam explorar.

Não, não conseguia entender aquela frieza da despedida. Como esquecer alguém que se ama, como esquecer alguém que tanta falta faz e que nos custa mais lembrar que viver?

Subitamente, deu um grito. A água quente escorria sobre suas mãos. “Péssimo sinal”, pressentiu. Precisava se concentrar, prestar mais atenção em suas atitudes. Correu em busca de um alívio contra queimadura. Não havia nada no armário. Molhou o dedo com a saliva na tentativa de refrescar o ardor enquanto voltava à cozinha, onde seu chá de camomila com lavanda já havia esfriado. Tomou num só gole.

Sabia que nessa hora ele estaria longe e o peito apertava ainda mais, sentindo um nó na garganta. Sentou-se no sofá, ligou a TV mesmo sabendo que nada assistiria, baixou o som na tentativa de relaxar enquanto lágrimas corriam pelo seu rosto.

O telefone tocou. Assustou-se. Quem seria aquela hora? Do outro lado da linha, uma voz  firme indagou:

- Senhora Sofia Flores?

-  Sim - respondeu.

- É uma urgência. Um acidente com o senhor Dean Smith, na Rota 606. A senhora o conhece, não? Encontramos um cartão com seu número de celular.

- O que houve?

- Nesse momento - contou o policial - ele está sendo removido para o Hospital St. John. No hospital lhe darão todas as informações a respeito dele.

Rodopiou na sala sem conseguir colocar o fone no gancho. Perdeu os sentidos. O que haveria acontecido com Dean? Ele era tão meticuloso ao dirigir.

Com as pernas trêmulas, Sofia subiu as escadarias do hospital. Mal pode reconhecer Dean através do vidro, com a cabeça toda enfaixada de gaze, tubos que entravam pela sua garganta e narinas. Fitou-o longamente, na tentativa de gritar seu nome, mas a voz travou.

Avistou o doutor Ivan, que vinha em sua direção pelo corredor, cabisbaixo.

- Doutor Ivan, somos amigos há anos, não precisa de constrangimento, diga-me logo o estado de saúde de Dean, por favor! Estou aflita - falou com a voz tomada pelo abalo.

Passando a mão em seu cavanhaque, pausadamente pigarreou e finalmente disse:

- Sei o quanto você o ama, conheço-os bem, porém, sinto- lhe dizer que Dean tem poucas chances de vida, Sofia. O acidente foi gravíssimo. Vamos tentar de tudo para salvá-lo. Mas não lhe garanto nada. Lamentável - suspirou.

Deixou-a, colocando com delicadeza sua mãos sobre os ombros dela. Sofia ficou só, naquele imenso corredor sem vida, sem saber para onde ir. Se ao menos pudesse expulsar os pensamentos! Por que as pessoas têm de morrer, os amores acabarem? Mas agora era preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza.

***

Janeiro anunciava uma temperatura das mais baixas em Fargo. Sofia estava alojada no Hotel Harrys, até encontrar um lugar para morar. Sentada à mesa do restaurante do pequeno hotel, tomava o seu café enquanto apreciava através da janela os flocos de neve que caíam sobre os carros passando lá fora. Ouvia Beethoven, som que saía de um aparelho antigo instalado no fundo do salão, numa sinfonia que mais parecia uma composição cósmica.

- Boa-tarde, posso sentar-me ao seu lado?

Seus olhares  se cruzaram.

- Você não me conhece - ela respondeu, expressando seu espanto e olhando firmemente nos olhos do intruso.

- Me chamo Benjamin Foz, sou repórter fotográfico da Feeds Association - ele disse com eloquência, achando que a impressionaria por trabalhar num grande jornal da região. Mas ela mal prestou atenção. 

- Você estava tão contemplativa! Sou muito atento e observador. O que faz aqui nessa cidade perdida, no meio do deserto do Texas? Aliás, estou incomodando-a?

- Oh, não. Fique à vontade, por favor - ela afirmou com voz de quem gostaria de estar só.

Mas algo a fez concordar com que ele se sentasse ao seu lado. Esticou as mãos e fez um gesto para que ele ocupasse uma cadeira. Era o tipo de homem que jamais chamaria sua atenção. Jeitão displicente, cabelos crespos eriçados mal penteados, o volume um pouco armado, e vestia um  jaquetão verde todo amassado.

Sofia pediu uma água enquanto Benjamin contava suas jornadas de repórter fotográfico cobrindo a guerra na Síria, ao mesmo tempo em que tomava seu café e comia um pão torrado com mel.

- Está tudo bem? - sondou Benjamin, percebendo-a com a mente vagando.

- Sim, continue, está tudo bem. Está muito interessante, apesar de muito tristes, tais assuntos.

E a conversa se prolongou por algumas horas. Benjamin não cansava de falar, enquanto terminava um assunto já emendava outro.

Sofia tinha se mudado para Fargo na tentativa de fazer novas amizades e esquecer a morte de Dean. Agora esse estranho ser, bem ali na sua  frente, como um grilo falante. Aquilo já estava irritando-a, profundamente.

- Benjamin, desculpe-me estava distraída novamente, não ouvi bem o que você disse - ela confessou com voz baixa.

Sofia sentiu um alívio por ele não ter se aborrecido com ela naquele momento em que ela se perdia em seus pensamentos íntimos.

Passaram quase toda a tarde conversando e Benjamin, já curioso, quis saber um pouco sobre a vida dela. O que fazia uma pessoa tão bonita naquele lugar tão pequeno, de clima árido e quase sem  vida?

Sofia contou-lhe da morte de Dean e da necessidade de sair de Upah em busca de uma nova vida. Sem muita empolgação, Benjamin se disse consternado, mas mudou logo de assunto - o que para ela foi um alívio! Cansada de suas narrativas de viagens, Sofia pensou em sair daquele lugar. Benjamin, percebendo, deixou-a à vontade.

Ele estava hospedado numa pequena pensão, na mesma rua que ela, e havia ido até o Hotel Harrys tomar um café reforçado. Ficaram de se encontrar na semana seguinte. A despedida fria foi somente com um aperto de mão. O olhar de Benjamin era marcante, Sofia  sentiu gelar a alma.

Ela havia conseguido um emprego numa mercearia e estava contente com o trabalho, onde não sentia solidão. Tinha a liberdade de fazer e desfazer as mudanças que a loja necessitava. E já estava instalada em um apartamento pequeno, porém aconchegante.

O senhor Matteo, proprietário da mercearia, era um italiano forte, de barriga saliente e olhos grandes. Ficava sentado numa cadeira na porta da mercearia por horas fumando seu cachimbo, e a cada amigo que passava, ele cumprimentava. Para alguns, ele tinha o prazer de contar suas histórias de juventude, na Itália. Sofia já havia decorado todas e, vez ou outra, o corrigia quando ele repetia a tal história. E ali ele ficava, por horas a fio.

- Oh! Que grata surpresa - exclamou Sofia ao ver Benjamin entrar na mercearia após meses sem aparecer.

Trazia em suas mãos um farto buquê de flores.

- São para você - ele disse entregando o buquê a ela e olhando fixo em seus olhos.

- Lindo buquê! Humm... São muito cheirosas essas flores… Imaginei que nunca mais o veria, Benjamin - ela comentou demonstrando uma ponta de felicidade na voz.

Benjamin respirou fundo como se estivesse aliviado e Sofia agradeceu pelas flores.

- Por onde andou dessa vez? - perguntou-lhe, admirada diante da imagem sorridente que Benjamin estampava em seu rosto.

Havia um brilho especial nos olhos dele. Como sonhara com esse reencontro! Benjamin abraçou-a emocionado.

- Perdoe-me, Sofia, assuntos de última hora na redação fizeram-me sair às pressas, nem pude me despedir de você. Foram bombardeios para todo lado, fiz uma viagem tensa, cruel. Eu também tive receio de nunca mais voltar a te ver - confessou com a voz levemente embargada.

Sofia abaixou o olhar.

- Está de saída? - ele quis saber meio afobadamente, já cortando as palavras sem que, ao menos, ela pudesse responder.

-  Sim - respondeu Sofia tomando uma leve respiração. 

- Posso acompanhá-la até a sua casa?

Antes de ouvir a resposta ele já foi pegando a mochila que Sofia trazia para o almoço.

- Sim, podemos ir - ela disse. Espere aqui, vou só apanhar meu  casaco.

Entardecia. Um tímido sol dava sinais que a noite chegaria em breve. Benjamin esfregava as mãos na intenção de esquentá-las.

- Vamos tomar um chocolate quente? - ele sugeriu.

 - Sim - concordou Sofia.

- Pode ser aquele café da Rua Strauss, sei que lá fazem doces deliciosos.

Conversaram por horas. Benjamin começava a encantá-la com suas façanhas, contando novas histórias sobre a cobertura da guerra na Síria. Sofia sentia na pele os momentos tristes, que faziam seus olhos lacrimejar. E também os engraçados, que a faziam rir solto. 

-  Case-se comigo, Sofia. Você me encantou - ele declarou fitando-a.

O olhar de Benjamin era misterioso e encantador, daqueles que laçam a alma sem que ninguém perceba. Num repente, ele se levantou da cadeira na intenção de beijá-la.

- Ora, calma! Eu mal o conheço, não sei nada sobre você, a não ser as suas histórias de guerra - ela o interrompeu.

- Eu prometo que vou fazê-la feliz. Eu juro! Senti muitas saudades de você. Vamos, case-se comigo - ele insistiu. E num sussurro, declarou:

- Eu amo você.

O casamento foi realizado em uma cerimônia simples com as presenças do senhor Matteo como padrinho, e de sua amiga Lyz.

Sofia sentia-se feliz. Filhos estavam nos seus planos. Benjamin pensava em deixar a profissão de repórter fotográfico para se dedicar ao jornalismo dentro de uma redação. Estava cansado de cobrir guerras na Síria, queria dedicar mais seu tempo à Sofia.

Benjamin queria quatro filhos. Imaginava-os correndo pelo quintal, andando de bicicleta, passeando em parques. Queria uma família grande, afinal, ele era filho único e sempre havia sentido muita falta de irmãos.

Sofia pensava com seus botões: “Mulheres não precisam parir um filho atrás do outro. Os tempos mudaram…”. Também não imaginara ser mãe e agora, se pegava pensando no assunto. “Não, não, será apenas um filho”, repetia para si mesma.

Os dias passavam rapidamente enquanto Benjamin estava ao seu lado e o amava cada dia mais. Era uma manhã de primavera quando Benjamin partiu para mais uma missão à Síria. Sofia sentia a sua ausência e sabia que seu coração agitado tinha uma bela razão: o receio de notícias ruins que, provavelmente, chegariam da guerra.

De repente, o senhor Matteo soltou um grito do fundo da mercearia:

- Sofia, onde anda com a cabeça? Você misturou as cebolas com as frutas na mesma gôndola!

Sofia tinha um carinho especial pelo senhor Matteo, pois ele a tratava como filha desde quando se conheceram. O senhor Matteo trazia dentro de si uma alma triste por viver sozinho há tantos anos. Não que ele quisesse, porque dizia o quanto era difícil encontrar alguém como a mulher que tanto amou - e a quem deixou na Itália para se aventurar em outro país. Nunca pode voltar à Itália. Agora estava velho demais para tais aventuras.

Sofia correu, tropeçando por entre as caixas de legumes, e rapidamente fez a troca. Ela sabia que precisava estar mais atenta. Andava mesmo distraída e esquisita. Seu corpo andava vagaroso e pesado. “O que estaria acontecendo comigo? Nunca fui assim, e por que agora estaria tão desatenta?”, ela pensava consigo mesma.

Benjamin não mandava notícias há meses. Mas ela sabia o motivo, ele sempre dizia ser impossível a comunicação porque qualquer vacilo, e ele poderia perder um "grande lance". Ela afirmava que o entendia, mas na verdade, não compreendia muito bem essas coisas.

Os dias foram passando, e a qualquer momento seu bebê nasceria. Ela ainda trabalhava na mercearia, muito a contragosto do senhor Matteo, que discordava que ela trabalhasse o dia todo em pé. Sofia usava a desculpa de não saber ocupar-se com outra coisa. E, no fundo, ela precisava preencher as semanas que já estavam ficando cada dia mais tristes.

O que faria sozinha em casa sem a alegria de Benjamin? “Não, não, quero trabalhar até o nascimento do bebê”, ela dizia taxativamente ao senhor Matteo.

- Ah, vocês mulheres têm sempre desculpas na ponta da língua. Prestes a dar à luz, as mulheres precisam de descanso! Deixa que eu faço tudo sozinho por aqui. Qualquer coisa, mando chamar Lyz - teimava o senhor Matteo.

Repentinamente, Sofia sentiu uma incômoda tontura e um líquido morno vazou por entre suas pernas.

- Apresse o passo, senhor Matteo! - gritou Sofia percebendo seu mal estar. O mais rápido possível, o italiano a colocou no carro e levou-a ao hospital. 

Teve as piores dores das contrações enquanto o bebê não nascia. O doutor Robert  recomendou a cesariana, pois o bebê estava em posição contrária. O caso era de urgência. 

Horas depois, quando já amanhecia, Ronny nasceu. O bebê chegou manso e sereno. 

- Doutor Robert, preciso ver o meu filho, por favor! - suplicou Sofia. Ele é perfeito?

-  Sim,  Sofia, veja você mesma com seus próprios olhos. Um menino grande e saudável.

Ela suspirou aliviada.

- Bem, não sei, não - continuou o médico. Creio que se parece com você. Ah, e traz uma mancha escura cobrindo sua sobrancelha esquerda. Menino de sorte esse, não? Já nasceu com um certo charme.

Aparentando um certo cansaço, o doutor Robert enxugou o suor da face e colocou delicadamente Ronny nos braços da mãe.

Fez-se um silêncio absoluto no centro cirúrgico, enquanto Sofia, embriagada de alegria, abraçava Ronny com ternura, ao mesmo tempo que beijava com todo o seu amor aquele pedacinho de ser. Com o coração em prece, sentiu uma forte e estranha comoção quando viu a mancha escura no bebê. E lágrimas grossas correram pelo seu rosto. Aconchegou ainda mais o filho em seu peito. Uma luz os envolvia. Sussurrou:

- Você voltou, meu amor!

 

 

FIM 

O Artesanato me Salvou da Pandemia

  O Artesanato me Salvou da Pandemia Um confronto com a realidade. Mal sabia que, depois de ter saído de um problema sério de saúde, eu enfr...