* Quando ela foi embora...Monólogo da peça: " Vida através das cortinas." Com Yara Darin.
Antonio Silveira Serpa
" Não sei porque o silêncio nos visitou.
Por qual razão você foi embora.
Por que a motivaram.
A deixar-me assim.
Somando enfim.
A indiferença de antes.
Com a ausência crescente.
Em que me esvaio lento.
Nesse agora.
Sonolento.
Inconveniente.
Cruel.
E revel.
Momento.
Nesse caminhar que faço.
Com meus passos relutantes.
Pisando a areia molhada.
Sou tão infante.
Tão hesitante.
Querendo vingar-me de Netuno.
Negligente.
Meu regente.
Intransigente.
Reconhecendo.
Seus domínios.
Seu fascínio.
Mas que recrimino.
Por tanto esperar noturno.
Meu declínio.
Meu ansiar soturno.
Quero minha sereia amada.
De mim, arrebatada.
Que seus mares vaidosos, beijam.
Desejam e querem.
Quem me convém.
No vaivém das marés.
Que não se comovem.
São lágrimas salgadas.
Em ondas insensíveis.
Aladas.
Que se promovem.
Mas, não a devolvem.
Vou seguindo meu curso.
Como sombra, como vulto.
Entremeando meus soluços.
Semi-ocultos.
Sem convites.
Entre lembranças e dúvidas.
Palpites.
Confusos.
Convulsos.
Não me sinto bem em sua casa.
Sinto que minha dor prospera.
Entre diletos afetos.
Entre carinhos sinceros.
Tanta espera.
Mas que não vem ao caso.
Fico bem mais incompleto.
Olho a janela.
A vidraça.
Por onde você brinca.
E ultrapassa.
Com graça.
Me chamando.
Invisível.
Levitando.
Pouco crível.
Me deixando ao descaso.
Como um ocaso.
Sem prazo.
Seu corpo adormecido.
No centro barroco de um salão frio.
Seus movimentos tolhidos, esquecidos.
Seus poemas densos, ora sombrios.
Seus temas intensos, seus desvarios.
Calados.
Entre anjos vazios, retraídos.
Comportados.
Abstraídos.
Olhando suas formas inertes.
Relembrando carícias.
De antes.
Sussurrando.
Ante esse silêncio vigilante.
De agora.
Esperando que despertes.
Amante.
Depois.
Retornando os toques febris.
De seus quadris.
Encantos de outrora.
Felizes.
Loucos.
Nem um pouco.
Sutis.
Guardo o melhor.
Das pessoas chorando.
Ao redor.
Imploro.
Mas meus olhos nada vertem.
Se recusam.
Irão procurá-la melhor.
Nas esquinas.
Na colina.
E nem há quem conserte.
Cicatrizes como essas.
Tão raízes.
Tão confessas.
Nesse caminhar sem fim.
À solta.
Já nem me acho.
Em mim.
Nessa perda revôlta.
Que me domina.
Por fim.
Ante a procura vã.
E impura.
De quem não mais ilumina.
Meu amanhã.
Minha neblina.
Meu medo.
Meus brinquedos.
Partilhados.
Em segredos.
Sob prismas.
Sob cismas.
Em nossa declamada.
Colina.
Em que a aguardo.
E resguardo.
Menina.
Vida colorida.
Pressentida.
Através das cortinas."
por: Antonio Silveira Serpa, quarta, 14 de Março de 2012 às 20:23 ·

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