Cabra macho, sim senhor !
E era mesmo. Andava sempre com uma peixeira na cintura.
“Se mexer comigo leva”, dizia! Felizmente, nunca chegou a precisar dessa violência, mas acho que matou muita cobra! Adorava pescar e andar pelos matos. Visitar fazendas de café e algodão da região era o seu passeio preferido. Fazia isso para estar em contato com as pessoas mais humildes.
Tinha seu chapéu de couro, sim, sempre pendurado atrás da porta da sala, com aquele orgulho de todo bom nordestino.
Bernardo saiu da sua cidade natal em Viçosa, Alagoas para “tentar a sorte” no interior de São Paulo, montado numa carroceria de um caminhão, depois de viagem de navio até Santos. Foram longos e sofridos dias até São Paulo - Marília.
As notícias à época diziam que a cidade de Marília prosperava em terras ricas de café e algodão.
E foi nesta cidade que Bernardo se instalou a convite do irmão Odilon que, impressionado com o progresso, mandou chamá-lo.
Tinha como ofício sapateiro, não sabia fazer outra coisa. E assim começou sua vida por lá. Seu primeiro e único emprego foi numa sapataria.
Seu patrão, um homem bom e amável que o acolheu, deu-lhe emprego, alimentação e moradia, que ficava nos fundos da própria sapataria, até que Bernardo conseguisse arrumar um lugar e levar sua vida sozinho.
O tempo foi generoso com Bernardo, que prosperava a cada dia em seu trabalho. Passado algum tempo, Bernardo conheceu uma mimosa menina de apenas 15 anos, chamada Julieta, filha de italianos. Paixão fulminante. Não demorou muito para se casarem.
Logo vieram os filhos. Bernardo, 'a época, bem sucedido econômicamente, comandava sua própria indústria de calçados já conhecida em toda a Alta Paulista.
Tinha o dom da oratória. Sempre pronto na luta para ajudar os menos favorecidos, encaminhava para os abrigos os adultos e famílias que vindas de outras partes do Estado, não tinham para onde ir. Com todo essa dedicação, para entrar na política foi um pulo.
Candidatou-se e ganhou seu primeiro mandato como vereador. Era eloquente e cada dia mais engajado na defesa dos mais necessitados. Essa era a sua luta, a sua vida e a ela se dedicou de corpo e alma. Fez vários projetos beneficiando grande parte da população mariliense. Um salto para conquistar seu segundo mandato.
Comunista, Bernardo contava com o apoio do Presidente do Partido Comunista no Brasil Sr. Luiz Carlos Prestes e outros aliados como o escritor Jorge Amado, o médico de família Dr. Reynaldo Machado, Osório Alves de Castro- romancista e alfaiate e tantos outros companheiros e simpatizantes. Assim como, ganhou vários amigos, também ganhou inimigos. Mas, nada disso impediu que Bernardo ganhasse nos idos de 1960 título como o “Melhor Vereador do Estado de São Paulo” em iniciativa do jornal "Correio Paulistano". Um prêmio recebido com honras e aplausos pelas mãos do Presidente da Câmara e demais Vereadores. Bernardo, "O Vereador do Povo", assim o chamavam, homenageou os marilienses, dedicando 'a eles a conquista do prêmio.
Sentindo sua ascendência política e a necessidade de intensificar melhorias 'a população de maior carência; - candidatou-se a prefeito. Mas o tempo já não mais favorecia seus ideais e Bernardo foi cassado pela ditadura em março de 1964. Adeus, almejado cargo de prefeito. "O primeiro homem cassado pela ditadura no Brasil", ele fazia questão de dizer.
Preso em primeiro de Abril de 1964, foi levado para São Paulo. Lá, em tortura psicológica, ficou incomunicável por vários meses no Presídio do Hipódromo. Para não morrer de frio ou pneumonia, no cárcere dormia de costas para os amigos. Lá dentro, arrumou "costas quentes" e, do carcereiro, ficou amigo. O algoz emprestava as chaves da cela para Bernardo e seus companheiros irem ao banheiro, tomar sol, café...
Onde mais veremos um preso cuidando das celas e cadeados? Assim era Bernardo. E, se dessa maneira terminava sua carreira política, seus ideais não morreriam jamais. Muito menos o sonho de ver a democracia reinstalada no país - e por ela continuar lutando.
Morreu sentindo-se feliz, pois sabia que sua luta não havia sido inglória!
Bernardo será sempre lembrado pelo seu idealismo democrático, sua garra e luta férrea para conseguir dar ao povo menos favorecido a mesma condição sócio-econômica, quanto ao resto do país.
Julieta que amava Bernardo; Bernardo que amava Julieta e com ela viveu durante felizes 52 anos.
Seu corpo está sepultado em Marília, a cidade escolhida por ele que o acolheu como seu filho dando-lhe as maiores alegrias desse mundo.
Hoje, em Marília, existe uma linda e imensa praça arborizada que leva o seu nome:-
"Praça Bernardo Severiano da Silva" ao lado do Clube dos Bancários, seu clube de coração, onde orgulhava-se de ter sido um dos pioneiros como sócio-remido.
Em Tempo: ainda moço aposentou a peixeira e passou a resolver tudo com uma boa conversa. Dizia: “Marília me civilizou".
Se eu tenho orgulho desse Homem cabra macho?
Tenho e muito!
Ele é meu eterno e inesquecível ídolo, ele é meu pai!
* Esse texto de minha autoria foi publicado no livro
Varal Antológico 4, da editora Varal do Brasil.
Genebra/ Suíça.
yaradarin



Nenhum comentário:
Postar um comentário