9 de outubro de 2020

Sede




vorazes
sedentos
vinhos bebidos
caligrafia esculpida
em pedra encravada
hora imprecisa - cai
chuva e tempestade
nas paredes da caverna

consciência
em espaço roubado
vejo reconstruído
uma nesga de luz na escuridão.



foto #yaradarin


6 de setembro de 2020

Contemplação

               Contemplação


Sentou-se na cadeira junto à cama de Saulo, segurou-lhe na mão enrugada e magra. Imediatamente sua memória a fez relembrar dos tempos que a vida tinha mudado por completo, tornando-a melhor ao lado de Saulo, quem dera sentido à sua existência. Foram anos de alegria e felicidade.

 

Isabel observou os olhos de Saulo, crispados, perdidos ao longe. Pareciam não querer encará-la. Levemente, com as mãos, Isabel sacudiu o corpo de Saulo que permanecia inerte. Pigarreou. Enquanto suspirava profundamente, indagou:

 

-  Saulo, sabe quem sou? Isabel, estou aqui para revê-lo. Estou de volta.

 

Repassando seu olhar pelo quarto, deparou-se com seu porta retrato em cima da cômoda. Nada havia mudado. Quantas recordações ficaram naquele cômodo cheio de sonhos desfeitos por um capricho dela, acompanhado de mágoas e regado a lágrimas.

 

Orfeu, onde estaria a não ser deitado aos pés de Saulo? Logo deduziu que ele provavelmente havia deixado-o. Gatos não abandonam seus donos. Teria morrido, talvez!

 

 - Olhe para mim, Saulo - disse em tom baixinho. Fale comigo!

 

O quarto mergulhou num silêncio absoluto. Isabel havia voltado para pedir-lhe perdão. Talvez ainda houvesse um resto de esperança em tê-lo novamente ao seu lado. Sua remissão era tudo que ela mais queria naquele momento. Mas Saulo nunca quis perdoá-la, nunca mais quis vê-la, não suportava essa ideia.

 

O quarto cheirava azedo. As paredes desbotadas ainda conservavam uma leve pintura de outrora, que fora escolhida por ela. Raios de sol do fim de tarde invadiam a janela pelas frestas da persiana, encardidas pelo tempo. 

 

Saulo franzia a testa enquanto arregalava os olhos, sempre perdidos no infinito, sem nada pronunciar.

       

“O que estaria imaginando?”, refletiu Isabel. Aproximou-se mais e mais tentando beijar sua face. Sentiu rejeição, mas algo a fez perceber o que até então nunca pensara antes. Ainda amava com toda intensidade aquele homem diante dela. O peito oprimido dificultava sua respiração. Sentiu um nó na garganta. Lágrimas escorreram pelo seu rosto.

 

Não poder tocá-lo a deixava mais e mais atormentada. Chegar até a sua alma, seria o dia mais feliz de sua vida. Mas não, sempre estático, sem o menor gesto de dizer alguma coisa. Ela não conhecia mais aquele homem, e como se tornara tão indiferente! Frio, gelado!

 

Quando ela se meteu por aquele caminho não fazia ideia para onde este a levaria e deixou-se guiar pelo seu coração, abandonando Saulo, quem mais a amava.

 

Quando conheceu Manu, um jovem alto e sedutor de olhos verdes, não teve dúvidas. Iria a qualquer lugar desse planeta com ele. Abandonou Saulo e mudou-se para o México com seu amor, supondo ser essa a sua grande paixão. Ledo engano.

 

Manu apresentou-se como empresário de uma grande companhia de minérios  daquele país e assegurava ter um grande amor por ela. Porém, aos poucos, Isabel foi descobrindo a verdadeira identidade de Manu. Não passava de um despudorado enganador.  

 

Sentiu inquietude em Saulo, suas mãos trêmulas faziam gestos que ela não compreendia. “Estaria me expulsando?”, pensou. Admirava-o pela sua beleza jovial e a fidelidade do seu amor a ela. Saulo não havia se casado, não tinha sequer parentes, estava só naquele leito. Absolutamente ninguém para lhe fazer companhia, nem mesmo Orfeu, seu gato de estimação.

 

Isabel questionava. Se ao menos tivesse ligado algumas vezes, tivesse falado do seu arrependimento em tê-lo deixado, talvez nada disso agora estaria acontecendo. Retornou à tona, agarrada nas lembranças daqueles dias felizes, e concluiu que o tempo havia sido impiedoso demais, ao chegar tão tardiamente naquele quarto.

 

Naquele instante percebeu que não haveria mais tempo para recomeçar uma nova vida com Saulo, enquanto colocava suas mãos sobre as dele, afagando-as. 

 

Tudo nessa vida só acontece como tem de acontecer, disso ela já sabia e isso serviu como um lenitivo, mesmo com as lágrimas escorrendo sobre seu rosto. Fechou os olhos e deixou-se guiar pelo sentimento de amor que lhe invadia no momento, beijando os lábios travados de Saulo.

 

Aquele beijo era a despedida. Olhou pela fresta da persiana e viu que nuvens negras ameaçavam chuva torrencial. Reconheceu que era hora de partir. Seu rosto queimava como fogo e o cansaço a dominava, inútil insistir em algo que não mais o traria de volta. Sentiu seus sonhos de asas pesadas. 

 

Levantou-se, balbuciou um adeus que mal saiu de seus lábios trêmulos e partiu daquele quarto, impregnado de lembranças. Por um momento, voltou seu olhar para trás, na ilusão de resgatar as utopias que havia abandonado, quando o sol ainda brilhava todos os dias em suas vidas. 

 

Deixou-o na penumbra do quarto, para sempre, e atrás de si, todo um passado que ansiava semear num futuro de eterno amor. Anoitecia, enquanto todos os desalentos iam sendo varridos nas ruas molhadas pela chuva.

22 de agosto de 2020

REENCONTRO I

 

REENCONTRO

A despedida tinha sido cruel. Ela sabia que jamais o veria, mas intuía que suas almas jamais se separariam. Seu corpo quase inerte respirava com dificuldade, como se uma avalanche tivesse caído sobre sua cabeça. Mas agora, tarde demais, ele não voltaria atrás. Todo aquele imenso amor havia se acabado naquela despedida.

O relógio marcava 10 pm. Precisava descansar e um chá quente faria-lhe bem. Queria tomar algo que a fizesse dormir profundamente, era tudo o que precisava naquele momento. O dia havia sido consumido em diálogos intensos, pontos inconsistentes, repetitivos, com incalculáveis conjunturas, esgotando-a profundamente. Estava exaurida e a decisão de se separarem deixava seus nervos em frangalhos.

O namoro com Dean vinha desde a adolescência. Quando o conheceu, foi amor à primeira vista. Dean tinha muito charme com seus olhos ora azulados, ora acinzentados. Com aparência angelical, nariz delgado, cabelos crespos e pretos. Trazia uma grande mancha marrom sobre sua sobrancelha esquerda, que lhe dava um certo encanto.

Ela o amava profundamente. Dean tinha o hábito de ligar toda manhã para dar-lhe bom-dia. Sua voz sedutora fazia-a eriçar todo seu corpo. Aquele momento era único, pulava da cama com tamanha agilidade sabendo da alegria imensa que a esperava no finalzinho da tarde,  quando o encontraria na cafeteria Blue Star.

Nos finais de semana, viajavam para lugares distantes em busca da natureza, onde pássaros cantavam ao amanhecer. No inverno, ficavam em lugares aconchegantes, com lareira, acompanhados de um bom vinho tinto. Momentos íntimos que só eles sabiam explorar.

Não, não conseguia entender aquela frieza da despedida. Como esquecer alguém que se ama, como esquecer alguém que tanta falta faz e que nos custa mais lembrar que viver?

Subitamente, deu um grito. A água quente escorria sobre suas mãos. “Péssimo sinal”, pressentiu. Precisava se concentrar, prestar mais atenção em suas atitudes. Correu em busca de um alívio contra queimadura. Não havia nada no armário. Molhou o dedo com a saliva na tentativa de refrescar o ardor enquanto voltava à cozinha, onde seu chá de camomila com lavanda já havia esfriado. Tomou num só gole.

Sabia que nessa hora ele estaria longe e o peito apertava ainda mais, sentindo um nó na garganta. Sentou-se no sofá, ligou a TV mesmo sabendo que nada assistiria, baixou o som na tentativa de relaxar enquanto lágrimas corriam pelo seu rosto.

O telefone tocou. Assustou-se. Quem seria aquela hora? Do outro lado da linha, uma voz  firme indagou:

- Senhora Sofia Flores?

-  Sim - respondeu.

- É uma urgência. Um acidente com o senhor Dean Smith, na Rota 606. A senhora o conhece, não? Encontramos um cartão com seu número de celular.

- O que houve?

- Nesse momento - contou o policial - ele está sendo removido para o Hospital St. John. No hospital lhe darão todas as informações a respeito dele.

Rodopiou na sala sem conseguir colocar o fone no gancho. Perdeu os sentidos. O que haveria acontecido com Dean? Ele era tão meticuloso ao dirigir.

Com as pernas trêmulas, Sofia subiu as escadarias do hospital. Mal pode reconhecer Dean através do vidro, com a cabeça toda enfaixada de gaze, tubos que entravam pela sua garganta e narinas. Fitou-o longamente, na tentativa de gritar seu nome, mas a voz travou.

Avistou o doutor Ivan, que vinha em sua direção pelo corredor, cabisbaixo.

- Doutor Ivan, somos amigos há anos, não precisa de constrangimento, diga-me logo o estado de saúde de Dean, por favor! Estou aflita - falou com a voz tomada pelo abalo.

Passando a mão em seu cavanhaque, pausadamente pigarreou e finalmente disse:

- Sei o quanto você o ama, conheço-os bem, porém, sinto- lhe dizer que Dean tem poucas chances de vida, Sofia. O acidente foi gravíssimo. Vamos tentar de tudo para salvá-lo. Mas não lhe garanto nada. Lamentável - suspirou.

Deixou-a, colocando com delicadeza sua mãos sobre os ombros dela. Sofia ficou só, naquele imenso corredor sem vida, sem saber para onde ir. Se ao menos pudesse expulsar os pensamentos! Por que as pessoas têm de morrer, os amores acabarem? Mas agora era preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza.

***

Janeiro anunciava uma temperatura das mais baixas em Fargo. Sofia estava alojada no Hotel Harrys, até encontrar um lugar para morar. Sentada à mesa do restaurante do pequeno hotel, tomava o seu café enquanto apreciava através da janela os flocos de neve que caíam sobre os carros passando lá fora. Ouvia Beethoven, som que saía de um aparelho antigo instalado no fundo do salão, numa sinfonia que mais parecia uma composição cósmica.

- Boa-tarde, posso sentar-me ao seu lado?

Seus olhares  se cruzaram.

- Você não me conhece - ela respondeu, expressando seu espanto e olhando firmemente nos olhos do intruso.

- Me chamo Benjamin Foz, sou repórter fotográfico da Feeds Association - ele disse com eloquência, achando que a impressionaria por trabalhar num grande jornal da região. Mas ela mal prestou atenção. 

- Você estava tão contemplativa! Sou muito atento e observador. O que faz aqui nessa cidade perdida, no meio do deserto do Texas? Aliás, estou incomodando-a?

- Oh, não. Fique à vontade, por favor - ela afirmou com voz de quem gostaria de estar só.

Mas algo a fez concordar com que ele se sentasse ao seu lado. Esticou as mãos e fez um gesto para que ele ocupasse uma cadeira. Era o tipo de homem que jamais chamaria sua atenção. Jeitão displicente, cabelos crespos eriçados mal penteados, o volume um pouco armado, e vestia um  jaquetão verde todo amassado.

Sofia pediu uma água enquanto Benjamin contava suas jornadas de repórter fotográfico cobrindo a guerra na Síria, ao mesmo tempo em que tomava seu café e comia um pão torrado com mel.

- Está tudo bem? - sondou Benjamin, percebendo-a com a mente vagando.

- Sim, continue, está tudo bem. Está muito interessante, apesar de muito tristes, tais assuntos.

E a conversa se prolongou por algumas horas. Benjamin não cansava de falar, enquanto terminava um assunto já emendava outro.

Sofia tinha se mudado para Fargo na tentativa de fazer novas amizades e esquecer a morte de Dean. Agora esse estranho ser, bem ali na sua  frente, como um grilo falante. Aquilo já estava irritando-a, profundamente.

- Benjamin, desculpe-me estava distraída novamente, não ouvi bem o que você disse - ela confessou com voz baixa.

Sofia sentiu um alívio por ele não ter se aborrecido com ela naquele momento em que ela se perdia em seus pensamentos íntimos.

Passaram quase toda a tarde conversando e Benjamin, já curioso, quis saber um pouco sobre a vida dela. O que fazia uma pessoa tão bonita naquele lugar tão pequeno, de clima árido e quase sem  vida?

Sofia contou-lhe da morte de Dean e da necessidade de sair de Upah em busca de uma nova vida. Sem muita empolgação, Benjamin se disse consternado, mas mudou logo de assunto - o que para ela foi um alívio! Cansada de suas narrativas de viagens, Sofia pensou em sair daquele lugar. Benjamin, percebendo, deixou-a à vontade.

Ele estava hospedado numa pequena pensão, na mesma rua que ela, e havia ido até o Hotel Harrys tomar um café reforçado. Ficaram de se encontrar na semana seguinte. A despedida fria foi somente com um aperto de mão. O olhar de Benjamin era marcante, Sofia  sentiu gelar a alma.

Ela havia conseguido um emprego numa mercearia e estava contente com o trabalho, onde não sentia solidão. Tinha a liberdade de fazer e desfazer as mudanças que a loja necessitava. E já estava instalada em um apartamento pequeno, porém aconchegante.

O senhor Matteo, proprietário da mercearia, era um italiano forte, de barriga saliente e olhos grandes. Ficava sentado numa cadeira na porta da mercearia por horas fumando seu cachimbo, e a cada amigo que passava, ele cumprimentava. Para alguns, ele tinha o prazer de contar suas histórias de juventude, na Itália. Sofia já havia decorado todas e, vez ou outra, o corrigia quando ele repetia a tal história. E ali ele ficava, por horas a fio.

- Oh! Que grata surpresa - exclamou Sofia ao ver Benjamin entrar na mercearia após meses sem aparecer.

Trazia em suas mãos um farto buquê de flores.

- São para você - ele disse entregando o buquê a ela e olhando fixo em seus olhos.

- Lindo buquê! Humm... São muito cheirosas essas flores… Imaginei que nunca mais o veria, Benjamin - ela comentou demonstrando uma ponta de felicidade na voz.

Benjamin respirou fundo como se estivesse aliviado e Sofia agradeceu pelas flores.

- Por onde andou dessa vez? - perguntou-lhe, admirada diante da imagem sorridente que Benjamin estampava em seu rosto.

Havia um brilho especial nos olhos dele. Como sonhara com esse reencontro! Benjamin abraçou-a emocionado.

- Perdoe-me, Sofia, assuntos de última hora na redação fizeram-me sair às pressas, nem pude me despedir de você. Foram bombardeios para todo lado, fiz uma viagem tensa, cruel. Eu também tive receio de nunca mais voltar a te ver - confessou com a voz levemente embargada.

Sofia abaixou o olhar.

- Está de saída? - ele quis saber meio afobadamente, já cortando as palavras sem que, ao menos, ela pudesse responder.

-  Sim - respondeu Sofia tomando uma leve respiração. 

- Posso acompanhá-la até a sua casa?

Antes de ouvir a resposta ele já foi pegando a mochila que Sofia trazia para o almoço.

- Sim, podemos ir - ela disse. Espere aqui, vou só apanhar meu  casaco.

Entardecia. Um tímido sol dava sinais que a noite chegaria em breve. Benjamin esfregava as mãos na intenção de esquentá-las.

- Vamos tomar um chocolate quente? - ele sugeriu.

 - Sim - concordou Sofia.

- Pode ser aquele café da Rua Strauss, sei que lá fazem doces deliciosos.

Conversaram por horas. Benjamin começava a encantá-la com suas façanhas, contando novas histórias sobre a cobertura da guerra na Síria. Sofia sentia na pele os momentos tristes, que faziam seus olhos lacrimejar. E também os engraçados, que a faziam rir solto. 

-  Case-se comigo, Sofia. Você me encantou - ele declarou fitando-a.

O olhar de Benjamin era misterioso e encantador, daqueles que laçam a alma sem que ninguém perceba. Num repente, ele se levantou da cadeira na intenção de beijá-la.

- Ora, calma! Eu mal o conheço, não sei nada sobre você, a não ser as suas histórias de guerra - ela o interrompeu.

- Eu prometo que vou fazê-la feliz. Eu juro! Senti muitas saudades de você. Vamos, case-se comigo - ele insistiu. E num sussurro, declarou:

- Eu amo você.

O casamento foi realizado em uma cerimônia simples com as presenças do senhor Matteo como padrinho, e de sua amiga Lyz.

Sofia sentia-se feliz. Filhos estavam nos seus planos. Benjamin pensava em deixar a profissão de repórter fotográfico para se dedicar ao jornalismo dentro de uma redação. Estava cansado de cobrir guerras na Síria, queria dedicar mais seu tempo à Sofia.

Benjamin queria quatro filhos. Imaginava-os correndo pelo quintal, andando de bicicleta, passeando em parques. Queria uma família grande, afinal, ele era filho único e sempre havia sentido muita falta de irmãos.

Sofia pensava com seus botões: “Mulheres não precisam parir um filho atrás do outro. Os tempos mudaram…”. Também não imaginara ser mãe e agora, se pegava pensando no assunto. “Não, não, será apenas um filho”, repetia para si mesma.

Os dias passavam rapidamente enquanto Benjamin estava ao seu lado e o amava cada dia mais. Era uma manhã de primavera quando Benjamin partiu para mais uma missão à Síria. Sofia sentia a sua ausência e sabia que seu coração agitado tinha uma bela razão: o receio de notícias ruins que, provavelmente, chegariam da guerra.

De repente, o senhor Matteo soltou um grito do fundo da mercearia:

- Sofia, onde anda com a cabeça? Você misturou as cebolas com as frutas na mesma gôndola!

Sofia tinha um carinho especial pelo senhor Matteo, pois ele a tratava como filha desde quando se conheceram. O senhor Matteo trazia dentro de si uma alma triste por viver sozinho há tantos anos. Não que ele quisesse, porque dizia o quanto era difícil encontrar alguém como a mulher que tanto amou - e a quem deixou na Itália para se aventurar em outro país. Nunca pode voltar à Itália. Agora estava velho demais para tais aventuras.

Sofia correu, tropeçando por entre as caixas de legumes, e rapidamente fez a troca. Ela sabia que precisava estar mais atenta. Andava mesmo distraída e esquisita. Seu corpo andava vagaroso e pesado. “O que estaria acontecendo comigo? Nunca fui assim, e por que agora estaria tão desatenta?”, ela pensava consigo mesma.

Benjamin não mandava notícias há meses. Mas ela sabia o motivo, ele sempre dizia ser impossível a comunicação porque qualquer vacilo, e ele poderia perder um "grande lance". Ela afirmava que o entendia, mas na verdade, não compreendia muito bem essas coisas.

Os dias foram passando, e a qualquer momento seu bebê nasceria. Ela ainda trabalhava na mercearia, muito a contragosto do senhor Matteo, que discordava que ela trabalhasse o dia todo em pé. Sofia usava a desculpa de não saber ocupar-se com outra coisa. E, no fundo, ela precisava preencher as semanas que já estavam ficando cada dia mais tristes.

O que faria sozinha em casa sem a alegria de Benjamin? “Não, não, quero trabalhar até o nascimento do bebê”, ela dizia taxativamente ao senhor Matteo.

- Ah, vocês mulheres têm sempre desculpas na ponta da língua. Prestes a dar à luz, as mulheres precisam de descanso! Deixa que eu faço tudo sozinho por aqui. Qualquer coisa, mando chamar Lyz - teimava o senhor Matteo.

Repentinamente, Sofia sentiu uma incômoda tontura e um líquido morno vazou por entre suas pernas.

- Apresse o passo, senhor Matteo! - gritou Sofia percebendo seu mal estar. O mais rápido possível, o italiano a colocou no carro e levou-a ao hospital. 

Teve as piores dores das contrações enquanto o bebê não nascia. O doutor Robert  recomendou a cesariana, pois o bebê estava em posição contrária. O caso era de urgência. 

Horas depois, quando já amanhecia, Ronny nasceu. O bebê chegou manso e sereno. 

- Doutor Robert, preciso ver o meu filho, por favor! - suplicou Sofia. Ele é perfeito?

-  Sim,  Sofia, veja você mesma com seus próprios olhos. Um menino grande e saudável.

Ela suspirou aliviada.

- Bem, não sei, não - continuou o médico. Creio que se parece com você. Ah, e traz uma mancha escura cobrindo sua sobrancelha esquerda. Menino de sorte esse, não? Já nasceu com um certo charme.

Aparentando um certo cansaço, o doutor Robert enxugou o suor da face e colocou delicadamente Ronny nos braços da mãe.

Fez-se um silêncio absoluto no centro cirúrgico, enquanto Sofia, embriagada de alegria, abraçava Ronny com ternura, ao mesmo tempo que beijava com todo o seu amor aquele pedacinho de ser. Com o coração em prece, sentiu uma forte e estranha comoção quando viu a mancha escura no bebê. E lágrimas grossas correram pelo seu rosto. Aconchegou ainda mais o filho em seu peito. Uma luz os envolvia. Sussurrou:

- Você voltou, meu amor!

 

 

FIM 

1 de maio de 2020

Dispersão



inevitável inverno,
cristais de gelo 
respingam na sarjeta.
o frio da noite me abraça,
um gato atravessa a rua
entre mendigos e a fome.
triângulo equilátero,
memórias antigas,
sua ausência angustiante.
caminho em silêncio,
o dia cada vez mais escuro,
você cada vez mais distante.



foto #yaradarin



31 de março de 2020

Fração de tempo




sedentos e vorazes
taças de vinhos 
safras adocicadas
caligrafia esculpida
em pedra encravada
na hora imprecisa 
cai a tempestade
parede de caverna
consciência viva
espaço usurpado
em fração de segundo
mescla de luz 
rasga a escuridão
entardecer no infinito
Minha alma ferida
ainda assim,sonha 


yaradarin





O Artesanato me Salvou da Pandemia

  O Artesanato me Salvou da Pandemia Um confronto com a realidade. Mal sabia que, depois de ter saído de um problema sério de saúde, eu enfr...