6 de setembro de 2020

Contemplação

               Contemplação


Sentou-se na cadeira junto à cama de Saulo, segurou-lhe na mão enrugada e magra. Imediatamente sua memória a fez relembrar dos tempos que a vida tinha mudado por completo, tornando-a melhor ao lado de Saulo, quem dera sentido à sua existência. Foram anos de alegria e felicidade.

 

Isabel observou os olhos de Saulo, crispados, perdidos ao longe. Pareciam não querer encará-la. Levemente, com as mãos, Isabel sacudiu o corpo de Saulo que permanecia inerte. Pigarreou. Enquanto suspirava profundamente, indagou:

 

-  Saulo, sabe quem sou? Isabel, estou aqui para revê-lo. Estou de volta.

 

Repassando seu olhar pelo quarto, deparou-se com seu porta retrato em cima da cômoda. Nada havia mudado. Quantas recordações ficaram naquele cômodo cheio de sonhos desfeitos por um capricho dela, acompanhado de mágoas e regado a lágrimas.

 

Orfeu, onde estaria a não ser deitado aos pés de Saulo? Logo deduziu que ele provavelmente havia deixado-o. Gatos não abandonam seus donos. Teria morrido, talvez!

 

 - Olhe para mim, Saulo - disse em tom baixinho. Fale comigo!

 

O quarto mergulhou num silêncio absoluto. Isabel havia voltado para pedir-lhe perdão. Talvez ainda houvesse um resto de esperança em tê-lo novamente ao seu lado. Sua remissão era tudo que ela mais queria naquele momento. Mas Saulo nunca quis perdoá-la, nunca mais quis vê-la, não suportava essa ideia.

 

O quarto cheirava azedo. As paredes desbotadas ainda conservavam uma leve pintura de outrora, que fora escolhida por ela. Raios de sol do fim de tarde invadiam a janela pelas frestas da persiana, encardidas pelo tempo. 

 

Saulo franzia a testa enquanto arregalava os olhos, sempre perdidos no infinito, sem nada pronunciar.

       

“O que estaria imaginando?”, refletiu Isabel. Aproximou-se mais e mais tentando beijar sua face. Sentiu rejeição, mas algo a fez perceber o que até então nunca pensara antes. Ainda amava com toda intensidade aquele homem diante dela. O peito oprimido dificultava sua respiração. Sentiu um nó na garganta. Lágrimas escorreram pelo seu rosto.

 

Não poder tocá-lo a deixava mais e mais atormentada. Chegar até a sua alma, seria o dia mais feliz de sua vida. Mas não, sempre estático, sem o menor gesto de dizer alguma coisa. Ela não conhecia mais aquele homem, e como se tornara tão indiferente! Frio, gelado!

 

Quando ela se meteu por aquele caminho não fazia ideia para onde este a levaria e deixou-se guiar pelo seu coração, abandonando Saulo, quem mais a amava.

 

Quando conheceu Manu, um jovem alto e sedutor de olhos verdes, não teve dúvidas. Iria a qualquer lugar desse planeta com ele. Abandonou Saulo e mudou-se para o México com seu amor, supondo ser essa a sua grande paixão. Ledo engano.

 

Manu apresentou-se como empresário de uma grande companhia de minérios  daquele país e assegurava ter um grande amor por ela. Porém, aos poucos, Isabel foi descobrindo a verdadeira identidade de Manu. Não passava de um despudorado enganador.  

 

Sentiu inquietude em Saulo, suas mãos trêmulas faziam gestos que ela não compreendia. “Estaria me expulsando?”, pensou. Admirava-o pela sua beleza jovial e a fidelidade do seu amor a ela. Saulo não havia se casado, não tinha sequer parentes, estava só naquele leito. Absolutamente ninguém para lhe fazer companhia, nem mesmo Orfeu, seu gato de estimação.

 

Isabel questionava. Se ao menos tivesse ligado algumas vezes, tivesse falado do seu arrependimento em tê-lo deixado, talvez nada disso agora estaria acontecendo. Retornou à tona, agarrada nas lembranças daqueles dias felizes, e concluiu que o tempo havia sido impiedoso demais, ao chegar tão tardiamente naquele quarto.

 

Naquele instante percebeu que não haveria mais tempo para recomeçar uma nova vida com Saulo, enquanto colocava suas mãos sobre as dele, afagando-as. 

 

Tudo nessa vida só acontece como tem de acontecer, disso ela já sabia e isso serviu como um lenitivo, mesmo com as lágrimas escorrendo sobre seu rosto. Fechou os olhos e deixou-se guiar pelo sentimento de amor que lhe invadia no momento, beijando os lábios travados de Saulo.

 

Aquele beijo era a despedida. Olhou pela fresta da persiana e viu que nuvens negras ameaçavam chuva torrencial. Reconheceu que era hora de partir. Seu rosto queimava como fogo e o cansaço a dominava, inútil insistir em algo que não mais o traria de volta. Sentiu seus sonhos de asas pesadas. 

 

Levantou-se, balbuciou um adeus que mal saiu de seus lábios trêmulos e partiu daquele quarto, impregnado de lembranças. Por um momento, voltou seu olhar para trás, na ilusão de resgatar as utopias que havia abandonado, quando o sol ainda brilhava todos os dias em suas vidas. 

 

Deixou-o na penumbra do quarto, para sempre, e atrás de si, todo um passado que ansiava semear num futuro de eterno amor. Anoitecia, enquanto todos os desalentos iam sendo varridos nas ruas molhadas pela chuva.

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