28 de setembro de 2022

Carta de Amor I

 Meu amor,


Escrevo na esperança de que um dia, e muito em breve nos veremos novamente.
O tempo passou, foram longos dias na minha vida, creio que na sua também, mas a esperança sempre reviveu em meu coração.

Tenho tido momentos sombrios e os pensamentos em você são o que me acalma, trazendo as lembranças do nosso último encontro, após tantos anos de separação.

Guardo dentro de mim as melhores recordações, apesar do incidente comigo. Isso só fortaleceu o amor que trago dentro de mim por você. Tenho muita saudade do nosso namoro, daquele amor de verdade que vivenciamos, porém, ficou tudo tão distante. Mas isso nada se perdeu com o tempo. Ainda respiro, vivo e você também.

Conhecê-lo foi a melhor coisa que me aconteceu, a melhor poesia que já fiz, a melhor canção já tocada, a mais linda cor do céu de meus dias.

Não vejo a hora de poder um dia te abraçar novamente. Ouço tantas notícias tristes sobre a Covid-19 e penso em você, arriscando sua vida em tantos lugares diferentes. Olhe, não tenho saído de casa a não ser para assuntos urgentes. Volto amedrontada, cheia de culpas, pensando que não deveria ter me arriscado. Que tempos de angustia estamos vivendo. Nunca imaginei tal situação para nossas vidas. Essa clausura me amedronta. É uma vida sem cor não poder te encontrar. A noite chega sempre devagarinho, me enlaçando, querendo acalmar minha alma. Aceito o alento e recolho-me no leito, onde meus sonhos clamam por você.

Meu amor, espero que você esteja se cuidando direitinho para que possamos nos abraçar muito, muito, assim que essa nuvem negra passar. Será um longo e forte abraço que vai se eternizar no tempo e transcender todo o espaço estelar. Sinta-se abraçado, meu amor, com toda a minha força e que os sonhos alimentem nossas almas, enquanto a paleta de cores da vida estejam pintando o nosso universo.

"Não há distância que separe um grande amor."

No momento é tudo. Me escreva, me conte que está com boa saúde e saudoso de mim.
Te beijo amorosamente. Seu amor para sempre.

Yara.

Carta de Amor II





Ciao amore



Buonanotte





Estava aqui sonhando, fazendo uns rabiscos, (quando estou proseando comigo mesma...) e fiquei relembrando algumas passagens da nossa época. Lembrando como evoluímos no decorrer de tão pouco tempo... Nosso reencontro me despertou para essas e outras lembranças ... 

'A época eu não poderia jamais dizer 'a minha mãe que eu estava de namoro com você, jamais, imagina! Ela surtaria....e me daria uma "senhora" surra, na certa, e além disso, o namorado, ameaçado. Quanta barbaridade, não é mesmo? Infelizmente, nós mulheres daquele tempo, fomos asfixiadas e abafadas em nossos desejos e prazeres por décadas... por mais inocentes que fossemos, até!

Hoje, tudo tão fácil, tão normal, coisas que fazem parte da curiosidade dos adolescentes, enfim..

Felizmente, fui evoluindo no decorrer do tempo; -sempre procurei ser uma mãe-avó avançada no tempo dos tempos modernos. Era essencial a evolução.

Sabe, cheguei até aqui, porque  me lembrei de um fato relevante entre nós dois. Certa vez, estávamos num baile, dançando nós dois amorosamente no Yara Club- na Av. Sampaio Vidal e, num determinado momento de ternura, você me puxou de encontro ao seu peito me apertando, (quase perdi o fôlego) você me disse baixinho:-  vamos fugir comigo!!!

-Eu sei que você se lembra, eu sei! 

Adolescente ingênua, medrosa, sem saber o que fazer, perdi o chão. Veio-me então naquela hora, todas as possibilidades de um maremoto familiar me atingindo certeiro na minha cabeça; esquivei-me, tive medo de não suportar tal avalanche familiar. Porém, eu nunca esqueci esse fato que me marcou profundamente. E pensar que te amava de verdade e eu sabia que seria para sempre, veja!!

Por muito tempo mergulhei em águas profundas, deixando meu barco oscilar como um berço por sobre as ondas. Sentia como se o mar quisesse adormecer toda tripulação, perdida no tempo mesmo sabendo que, um mar calmo, nunca fez de ninguém um bom marinheiro  e  sem reação, acabei perdendo você para sempre. (outros motivos houveram) mas não cabe aqui comentá-los agora).

Enfim, tudo isso pra dizer-lhe que relembrei desse fato assim que peguei o avião de volta pra casa; depois de ter tido um reencontro tão feliz com adoráveis momentos entre nós dois, 
- só por isso! Um dia nos reencontraremos novamente, até!

sua yara,

con affetto,

grande bacio per te 



É tão lindo enviar cartas amorosas para quem você gosta. É um jeito romântico e sábio de se declarar. Pena esse gesto tão bonito, tenha se perdido no tempo... 




26 de setembro de 2022

Luzes do astral



Luzes do Astral



Após duas horas rodando pela estrada que os levariam ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, um lugar místico que atrai constantes visitas espaciais, resolveram pernoitar num pequeno camping 'a beira da rodovia. A temperatura marcava 33.C. 
Jorge e Nísia estavam exaustos. Um banho refrescante era tudo que eles precisavam.

O crepúsculo  mergulhava por entre as árvores deixando a paisagem nostálgica. 

Jorge montava a tenda onde dormiriam apenas uma noite, enquanto  Nísia "farejava" o local que lhe parecia muito agradável. Caminhava por entre a vegetação rasteira onde só se ouvia o canto dos pássaros pousados em galhos secos. Buscava apreciar cada detalhe a sua volta respirando profundamente aquele aroma que exalava da relva. 

Com o binóculo avistou ao longe uma linda cachoeira que imaginou ser " O Véu da Noiva" que fica entre os Cânions I e II. Como era lindo tudo aquilo e se deu por feliz por estar realizando seu antigo sonho. Não estavam muito longe, faltavam apenas 65 km para chegar ao destino, mas a ansiedade deixava-lhe apreensiva.

O local paradisíaco os convidavam a ter uma agradável noite de sono para então partirem cedinho da manhã seguinte 'a Chapada dos Veadeiros. 

Jaime sentou-se num grande galho de árvore seca caído ao chão e convidou Nísia para sentar-se ao lado dele: - Venha cá amor, vamos olhar as estrelas. Há quanto tempo não temos um tempo para nós.

Nísia sentou-se ao lado de Jaime e ali ficaram observando as estrelas por horas e a cada descoberta de um ponto de luz era um espanto! 

Nísia avistou ao longe uma pálida luz. Suspirou aliviada e segura sabendo haver mais pessoas no acampamento. Estava grata e feliz pelo momento precioso de estarem juntos e visitar o lugar que há anos vivia pedindo ao Jaime para conhecê-lo.

-  Um chá de hortelã vai bem nessa hora, você  aceita, Jaime? indagou Nísia já  saindo para buscar a térmica de água quente. Jaime balançou a cabeça afirmativamente.

Nísia preparou um chá de hortelã e entregou-a cuidadosamente 'as mãos de Jaime. Fixou seus olhos nos olhos dele, achando-o pálido como uma cera.

-  Preciso tomar algo quente, balbuciou Jaime. Sinto frio.

-  Estranho, pensou Nísia, enquanto tomava o seu chá. O clima está  ameno e com a chuva fina que caiu a brisa amenizava o início da noite. 

Percebeu que as mãos de Jaime balançavam quase tombando a xícara.

-  Cuidado, Jaime! Você está bem, indagou Nísia? Ora, não vai se queimar!

Nísia suspeitou que algo em torno deles não estava bem. Deu alguns passos lentos ao redor da tenda e tudo lhe parecia normal. Imaginou ser o barulho das folhas que balançavam pelo vento.

Alguns vaga-lumes chegavam refletindo suas luzes. 

Jaime, exclamou Nísia, há quanto tempo não vejo um vaga-lume, olha que lindos! 

As lembranças da infância tomaram conta da sua alegria ao ver os pirilampos naquele bailado. 

-  Sabe, pronunciou Nísia, quando éramos pequenos eu e meus irmãos, apostávamos quem conseguiria pegar mais vaga-lumes. Corríamos feito loucos pelas ruas de chão batido para apanhá-los com uma peneira e um a um íamos enchendo os potes de vidro. Era uma brincadeira inocente de criança. A alegria tomava conta de mim ao vê-los piscando dentro dos frascos. Chegávamos em casa e cada um exibia sua porção de pirilampos. Pobrezinhos, já cansados e sem ar, davam os últimos suspiros. 

Jaime pousava o seu olhar muito além dos vaga-lumes. Seu rosto parecia sem cor, porém Nísia não quis interrompê-lo em seus pensamentos. Talvez estivesse se lembrando de sua infância também.

Jaime gritou assustado:  - Nísia, olhe para aquela luz que vem do céu, apontando em direção a uma estranha luz. A claridade pulsava no infinito e percorria de um lado para outro com uma velocidade assustadora.

A luz os deixou imobilizados. 
Aquilo era real! Nísia sentiu seu corpo estremecer, dando o alerta; estavam em perigo.

Repentinamente uma névoa sutil envolveu Jaime, deixando-o entorpecido. Nísia fitou os olhos de Jaime que já se distanciavam dela. 

Desesperado, Jaime acenou com seus braços estendidos e suas mãos buscavam as de Nísia. Seus lábios balbuciavam palavras que ela não conseguia decifrar. Cada segundo que passava a névoa ia ficando mais densa. Dois seres pequenos os olhavam indiferentes, inexpressivos sem emitir algum som. Logo em seguida dispersaram-se por entre a névoa e Jaime desapareceu.

Uma luz azulada cobriu seus olhos deixando-a desnorteada. Mas conseguiu gritar e implorar 'aquelas criaturas  que não levassem Jaime. 

Clamou: - Nosso reencontro tem histórias lindas a serem vivenciadas, esperei por ele todos esses anos, incansavelmente. Seria alguém capaz de imaginar que a vida poderia ser tão divina em nos unir assim, novamente? 

Quase sem sentidos, murmurou: - Por favor, ele é o meu... 

Um fio de luz atravessava uma pequena fresta da tenda clareando seu rosto incomodando-a, fez Nísia acordar. Sentiu-se desnorteada. Buscou encontrar as mãos de Jorge apalpando o colchão tentando achar o corpo de Jaime para ter a certeza de que estava ao seu lado, mas não o encontrou. Sua cabeça latejava. Tentou se posicionar, mas não conseguiu, sequer se levantar. Sem noção do que havia acontecido na noite anterior, gritou:

 - Jaime, Jaime, onde está você? 

-  Ora, ora, não sabia que você gostava tanto de dormir, exclamou! Sorrindo, Jaime vinha em sua direção e com suas mãos num gentil gesto tentou ajudá-la a levantar-se. Nísia ignorou.

-  Querida, o carro já está com toda bagagem e pronto para partirmos. Finalmente em poucas horas estaremos na Chapada dos Guimarães. Vamos, vamos, levante-se.

-   Querida, o que houve?  Está tão pálida! 

Subitamente levantou-se querendo entender o que estava acontecendo.
Notou que  Jaime já estava barbeado, semblante tranquilo, dentro de sua calça jeans, camisa azul e a jaqueta que ele adorava. Realmente, ele era um ser encantador, pensou, fitando seus olhos. 

Com a voz embargada balbuciou: - Estamos no mesmo camping? Lembra-se do que aconteceu nesta noite, Jaime? buscando em seu semblante algo revelador. 

Descartando suas perguntas, Jaime não entendendo nada do que ela dizia, deu de ombros e puxou-a pela cintura para junto de si. Envolveu-a em seus braços encarando-a com um sorriso sussurrou : -  Está tudo bem, tudo bem, querida. - Repito, o que houve? Me parece um pouco estranha.

Nísia colocou as mãos em seu coração afirmando com a cabeça que estava tudo bem.  - Sim, está tudo bem, querido! Vamos prosseguir nossa viagem, o dia está lindo e  ainda temos muito chão pela frente.

-  Então! A vida nos espera, exclamou Jaime, abraçando-a enquanto abria a porta do carro para ele entrar.

Nísia por um momento, voltou-se para percorrer seu olhar por toda a relva repleta de orvalho que ainda brilhava sob os primeiros raios de sol,  na certeza de que nenhum sinal daquelas criaturas havia ficado para trás.

Sentia-se extenuada, a cabeça ainda rodava quando entrou no carro e partiram.


yaradarin





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